CMV: como calcular o custo do que você vende

O faturamento subiu, o caixa não acompanhou e você não sabe onde o dinheiro ficou. Antes de culpar o aluguel, olhe para a maior saída de quase todo comércio e restaurante: o custo das mercadorias e dos ingredientes vendidos. Esse número se chama CMV e sai de três informações que você consegue ter até o fim do mês.
A conta é simples. O difícil é alimentá-la com compras lançadas pelo custo certo, fichas técnicas atualizadas e um estoque contado de verdade.
O que é CMV e como calcular o CMV percentual
CMV é o custo da mercadoria vendida: quanto custou, a preço de compra, tudo o que saiu do estoque no período. Não é o total pago aos fornecedores no mês, porque parte do que você comprou ainda está na prateleira e parte do que vendeu veio do mês anterior. Por isso a fórmula usa o estoque:
CMV = estoque inicial + compras − estoque final
O estoque inicial é o estoque final do mês anterior, e o final sai da contagem no último dia. Tudo a preço de custo, nunca a preço de venda. Como o valor em reais sozinho diz pouco, acompanhe também o CMV percentual:
CMV % = CMV ÷ receita líquida de vendas × 100
A receita líquida é o que você vendeu menos devoluções, cancelamentos, descontos concedidos e impostos sobre a venda. Confirme as deduções com o seu contador e use o mesmo critério todo mês.
Qual custo usar nas compras e no estoque
No comércio, o custo de cada item é o custo de aquisição da mercadoria para revenda. O Guia Prático de Precificação para os Pequenos Negócios, do Sebrae, lembra que a empresa com ICMS no regime de não cumulatividade não inclui o ICMS da compra no custo do estoque, porque ele é lançado como imposto a recuperar. O guia também cita PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai) e custo médio como métodos de controle de estoque e explica que o UEPS não é aceito pela Receita Federal.
Exemplo completo: o CMV de um mês numa mercearia
Exemplo: uma mercearia de bairro fecha o mês de outubro. Os estoques foram contados a preço de custo, as compras incluem o frete e o imposto sobre a venda é suposto em 6%. Todos os valores são de exemplo.
| Item | Valor |
|---|---|
| Estoque inicial (contagem de 30 de setembro) | R$ 18.000 |
| Compras de outubro | R$ 26.500 |
| Estoque final (contagem de 31 de outubro) | R$ 16.300 |
| Receita bruta de vendas | R$ 60.000 |
| Devoluções e cancelamentos | R$ 1.000 |
| Impostos sobre a venda | R$ 3.600 |
- Calcule o CMV. R$ 18.000 + R$ 26.500 − R$ 16.300 = R$ 28.200.
- Calcule a receita líquida. R$ 60.000 − R$ 1.000 − R$ 3.600 = R$ 55.400.
- Calcule o CMV %. R$ 28.200 ÷ R$ 55.400 = 0,509, ou seja, 50,9%.
- Calcule o lucro bruto. R$ 55.400 − R$ 28.200 = R$ 27.200. Dele saem aluguel, salários e as demais despesas.
Os R$ 28.200 incluem tudo o que saiu do estoque, vendido ou não: produto vencido, quebrado, consumido pela equipe ou furtado. Por isso o CMV % funciona como alarme. Para transformar esses percentuais em preço de venda, veja o artigo sobre markup e margem na formação de preço.
Revenda e food service: o custo nasce em lugares diferentes
Na revenda, o produto sai do estoque do jeito que entrou: a caixa de refrigerante comprada por R$ 30 custa R$ 30 quando é vendida, mais o frete. No food service você compra ingredientes e vende pratos. O custo de cada prato depende da receita, da perda na limpeza e de quanto o alimento encolhe no preparo, e a ferramenta para calculá-lo é a ficha técnica.
Ficha técnica: fator de correção e rendimento
- Fator de correção (FC) = peso bruto ÷ peso líquido. Mede a perda na limpeza: se você compra 1,5 kg de alface para aproveitar 1 kg de folhas, o FC é 1,5.
- Rendimento = peso pronto ÷ peso cru. Um hambúrguer de 150 g cru que sai da chapa com 120 g rende 0,8. Se a porção for definida pelo peso pronto, divida pelo rendimento para saber quanto usar cru.
- Preparos em lote, como molhos, viram ingrediente com custo por quilo: R$ 36 em ingredientes que rendem 2 kg de molho dão R$ 18 o quilo.
Exemplo de ficha técnica de um X-burguer. Quantidades, fatores e preços são de exemplo: meça os da sua cozinha.
| Ingrediente | Quantidade líquida | FC | Quantidade bruta | Preço de compra | Custo |
|---|---|---|---|---|---|
| Pão de hambúrguer | 1 un | 1,00 | 1 un | R$ 1,20/un | R$ 1,20 |
| Blend bovino cru | 150 g | 1,00 | 150 g | R$ 42,00/kg | R$ 6,30 |
| Queijo muçarela | 40 g | 1,00 | 40 g | R$ 38,00/kg | R$ 1,52 |
| Tomate | 30 g | 1,25 | 37,5 g | R$ 8,00/kg | R$ 0,30 |
| Alface | 15 g | 1,50 | 22,5 g | R$ 12,00/kg | R$ 0,27 |
| Molho da casa | 20 g | 1,00 | 20 g | R$ 18,00/kg | R$ 0,36 |
| Óleo e temperos (estimativa) | - | - | - | - | R$ 0,25 |
| Embalagem e guardanapo | 1 un | 1,00 | 1 un | R$ 0,90/un | R$ 0,90 |
| Total | R$ 11,10 |
Vendido a R$ 32,00 (exemplo), o lanche tem custo de 34,7% sobre o preço. Sem o fator de correção, tomate e alface custariam R$ 0,42 em vez de R$ 0,57: pouco num lanche, muito em centenas por mês. Para achar o seu FC, pese o ingrediente antes e depois da limpeza em dias diferentes e use a média.
CMV teórico e CMV real
Multiplique o custo de cada ficha técnica pela quantidade vendida no mês e some: esse é o CMV teórico, o que deveria ter saído do estoque. O CMV real vem da fórmula com inventário. Exemplo: teórico de 31% e real de 36%. Os 5 pontos de diferença são mercadoria usada além da ficha ou que saiu sem virar venda. Para atacar essa diferença, veja como reduzir o desperdício de alimentos no restaurante.
Como interpretar o CMV % subindo ou caindo
O CMV % de um mês isolado diz pouco. Compare com os meses anteriores do seu negócio e, no food service, com o CMV teórico. As causas mais comuns de variação:
| O que aconteceu | Efeito no CMV % | O que conferir |
|---|---|---|
| Fornecedor aumentou o preço e o seu preço de venda não mudou | Sobe | Custo das últimas notas contra o custo da planilha de preço |
| Promoções e descontos acima do normal | Sobe | Total de descontos concedidos no mês |
| Desperdício: vencimento, porção maior que a ficha, erro de preparo | Sobe | CMV teórico contra real e registro de perdas |
| Desvio: mercadoria que sai sem venda | Sobe | Contagem mais frequente dos itens de maior valor |
| Mix de vendas mudou | Sobe ou cai | Quais produtos ganharam participação nas vendas |
| Reajuste do preço de venda | Cai | Se o volume vendido se manteve |
| Erro de inventário ou nota lançada no mês errado | Distorce dois meses, em direções opostas | Recontagem e data de lançamento das notas |
Existe um CMV ideal?
Não existe um percentual que sirva para todo negócio: uma distribuidora de giro alto e margem apertada convive com CMV bem maior que uma loja de margem ampla. No food service, o Guia de Investimento Restaurante de Sucesso, do Sebrae-SP, aponta CMV de 32% a 45% para restaurantes no mercado nacional, com a ressalva de que os percentuais variam conforme o modelo do negócio. Use a faixa como ponto de partida e acompanhe, acima de tudo, a evolução do seu próprio número.
Rotina de inventário: quando contar, como contar e quem conta
Faça um inventário completo por mês, no último dia, para fechar o CMV. Entre um e outro, conte semanal ou quinzenalmente só os itens de maior valor ou maior risco de perda, como carnes, destilados e produtos pequenos e caros.
- Escolha um horário sem movimento. Antes de abrir ou depois de fechar.
- Lance todas as compras do período antes. Nota que chegou e não foi lançada vira diferença falsa.
- Siga a ordem física do estoque. Prateleira por prateleira, para ninguém pular um canto.
- Conte na unidade certa. Quilo para a carne, unidade para o pão, fração para a caixa aberta.
- Reconte as diferenças grandes. Outra pessoa confere o item antes de você aceitar a divergência.
- Valorize a preço de custo e guarde. Use o mesmo método todo mês: o estoque final de hoje é o inicial do próximo mês.
Sobre quem conta: evite deixar a contagem só com quem cuida do estoque no dia a dia. Trabalhe em dupla, uma pessoa contando e outra anotando, e o dono ou gerente reconta por amostragem os itens caros. Mais ideias estão no guia de controle de estoque eficiente para restaurantes.
Um erro de contagem distorce dois meses: o estoque final errado de hoje vira o estoque inicial errado do mês seguinte. Se o CMV % pulou num mês e caiu na mesma medida no outro, desconfie primeiro do inventário.
Como o Katalog ajuda a manter o estoque final confiável
O cálculo do CMV, das fichas técnicas e do custo de cada produto fica na sua planilha ou no seu sistema de gestão, já que os relatórios do Katalog são de vendas, não de custo ou lucro. O controle de estoque está disponível conforme o plano contratado.
- Baixa automática com histórico. O controle é ligado por produto. Com ele ativo, cada venda dá baixa automática, o cancelamento devolve a quantidade, as movimentações ficam registradas e o produto fica indisponível quando o saldo zera.
- Entradas, saídas e ajustes. Em Catálogo > Estoque você lança movimentações manuais com observação. Registre perdas como saída, com o motivo ("vencido", "quebra"), para que o que saiu sem venda fique anotado.
- Balanço com o celular. No app do Katalog, a aba Balanço usa a câmera para ler o código de barras: cada leitura soma 1 à contagem, e a quantidade pode ser editada. No painel, em Catálogo > Balanços, você revisa a contagem, vê a diferença entre o estoque do sistema e o contado e aplica o balanço.
- Casas decimais. O estoque aceita até 3 casas decimais, o que permite registrar uma caixa aberta pela fração ou um item controlado por peso, como 12,350 kg.
No restaurante, o estoque do Katalog acompanha os produtos cadastrados para venda, como bebidas e sobremesas prontas. Os ingredientes das receitas ficam na planilha ou no sistema de gestão.
Checklist para fechar o CMV todo mês
- Lance as notas de compra do mês pelo custo de aquisição antes do inventário.
- Faça a contagem completa no último dia, em dupla e fora do horário de movimento.
- Calcule estoque inicial + compras − estoque final e divida pela receita líquida.
- No food service, compare o CMV teórico com o real usando fichas com FC e rendimento medidos.
- Quando o CMV % mudar, investigue nesta ordem: inventário, preço de compra, descontos, desperdício e desvio.
Perguntas frequentes
CMV e CPV são a mesma coisa?
A lógica é a mesma, muda o tipo de negócio. CMV é o termo usado para quem revende mercadorias, e CPV, custo dos produtos vendidos, para quem fabrica. Restaurantes costumam falar em CMV mesmo produzindo os pratos, e o importante é usar o mesmo critério todo mês.
A refeição dos funcionários entra no CMV?
Se o que a equipe consome sai do estoque sem registro, acaba somado ao CMV e esconde perdas de verdade. O melhor é registrar esse consumo separadamente, por quantidade ou por estimativa. Como classificar esse valor na contabilidade é uma decisão a confirmar com o contador.
Dá para calcular o CMV sem fazer inventário?
Dá para estimar o CMV teórico, multiplicando o custo das fichas técnicas ou dos produtos pela quantidade vendida. Sem contar o estoque, porém, você não enxerga perdas, desvios nem erros de lançamento. Se o inventário completo todo mês for pesado, comece contando pelo menos os itens de maior valor.
O que fazer quando o fornecedor muda o preço no meio do mês?
Lance cada compra pelo valor da nota e deixe o método de valorização fazer a conta. No custo médio, o novo preço entra na média do estoque, e no PEPS as unidades mais antigas saem primeiro pelo custo antigo. Atualize logo as fichas técnicas e a planilha de preço, para o aumento não ficar escondido.
Equipe Katalog
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